domingo, 12 de abril de 2009

Confissões

Em criança raramente me era dado o prazer de descobrir os livros diretamente das prateleiras de livrarias ou sebos, lugares a que hoje vou assiduamente; tampouco eram frequentes minhas idas à biblioteca municipal.

Pelo que me recordo, os livros pareciam simplesmente surgir nas estantes de casa. Na verdade, alguns livros sempre estiveram lá, já que os nunca vi chegar, outros chegavam por mãos desconhecidas ou vizinhas, que os entregavam em sacolas ou caixas de papelão, sob a alegação de uma necessária limpeza doméstica. Quando essas entregas eram feitas, eu costumava espalhar os livros pelo chão, tentando adivinhar o porquê de terem sido tais objetos rejeitados pelos antigos donos, algo a que nunca pude atinar, pois que todos me pareciam interessantes, guardadores de alguma espécie de mistério.

Não posso me lembrar de qual foi o modo pelo qual o livro de Maria José Dupré, A Montanha Encantada, chegou a mim, se por encanto surgido entre os livros sempre presentes ou se trazido por outros, fruto de uma limpeza de domingo. O fato é que a capa de cores leves, azul e amarela, com a imagem de um duende, ser para mim desconhecido, e o brilho misterioso no alto de uma montanha, fez com que eu desejasse conhecer aquele mundo que me prometia aventuras. Eu contava cerca de dez anos.

A leitura desse livro não apenas me causava curiosidade e vontade de ler sem interrupções para descobrir o final, na ansiedade juvenil de saber onde tudo vai dar, mas principalmente me fazia sentir perto daqueles personagens em meio à descoberta de seres extraordinários vivendo em galerias subterrâneas, escondidas na montanha encantada. Sentia-me sufocada pelos ambientes sem iluminação natural, maravilhava-me diante das aranhas tecedeiras e indignava-me diante do fado carregado por aqueles homenzinhos, os quais acreditavam estar guardando-se de uma guerra sem fim do mundo exterior.

Outros muitos foram os livros que se seguiram a esse. Porém, tenho certeza de que nunca me esquecerei daquelas aventuras, as quais vivi, de uma certa maneira, como as crianças vivem – ou como todas deveriam viver.

Por Rosângela Felício dos Santos, 27 anos, mestranda em Teoria Literária pela USP, professora de Língua Portuguesa e outras línguas .


terça-feira, 20 de janeiro de 2009

E foi dado o pontapé inicial...

Pois é, começou mais um ano! Certo, estamos um pouco atrasados, mas depois de férias com provas, outros ainda na ressaca do final do terceiro ano, achamos justo começar mais tarde. Antes de qualquer coisa, bem, feliz ano novo, que você, leitor, tenha um ótimo 2009! 2009, aliás, que começou meio estranho... guerras, crises ao redor do mundo, aquecimento global e a controversa reforma ortográfica! Ah, é bom deixar bem claro que a gente ainda está se acostumando, então, nova forma de escrever... só em dezembro de 2012!


Futebol!

É isso aí, o texto é meu e eu escrevo sobre futebol, o esporte do Brasil! Claro que eu gostaria de dizer que somos o país do atletismo, da natação, da ginástica e do badmington, só que parece que o Governo não está muito interessado nisso; nada mais justificaria o repentino esquecimento de Maureen Maggi, as repetidas reclamações de Jade Barbosa sobre salário e patrocínio e a quantidade assustadora de medalhas douradas nas últimas olimpíadas. Assustadora no mal sentido. E eu lanço uma pergunta: onde está o prometido “super” campeonato feminino de futebol, organizado, prestigiado (na verdade, até aconteceu a Copa da Brasil, mas você, leitor, ficou sabendo?)? Quantos prêmios Marta terá de ganhar para merecer jogar no Brasil uma competição do mesmo nível do Brasileirão? É por essas e outras que ela e a Cristiane foram para os Estados Unidos...

A boa notícia vai para o basquete: parece que, realmente, uma liga independente será criada, sob o comando dos próprios times, a exemplo do que se faz, por exemplo, na Argentina. É, ia ser bom ter uma seleção ganhadora de novo.

E, quanto ao futebol, sim, 2009 promete! Na minha opinião de palpiteiro, São Paulo e Corinthians largam na frente no Campeonato Paulista: o primeiro, além de ser hexacampeão brasileiro, manteve a base campeã e contratou ótimos jogadores; o segundo também segurou a equipe campeã e trouxe um reforço, ao menos para o marketing do clube, ótimo: Ronaldo (Fenômeno). Acima do peso, sofrendo ainda brincadeiras com o ocorrido no Rio de Janeiro, mas disposto a mudar. É o que parece, é no que eu acredito. Se vai dar certo ou não, ninguém sabe; mas vamos ver, afinal, ele é o maior artilheiro das Copas do Mundo, certo?

Logo atrás (posso sofrer várias críticas) considero o Santos o terceiro time mais forte para o Paulistão, mais até que o Palmeiras, quarto na minha lista. Isso porque a equipe do litoral contratou bons jogadores. Mas você pode me perguntar: “Pô, mas o Palmeiras também não fez isso?”. Bem, dois pontos a salientar: as novas contratações são muito jovens, ao contrário das do Santos, que trouxe gente mais experiente; mas a grande diferença entre eles consiste no elenco de 2008: o Palmeiras perdeu muitos jogadores, a maioria essencial para o funcionamento do time. Na minha opinião, antes de a bola começar a rolar, essa é a ordem.

Existem muitos assuntos a se tratar; mas calma, uma coisa de cada vez. No momento, cabe a mim despedir-me de você e desejar-lhe um ótimo ano novo. Não só nos esportes, mas em tudo, mesmo. Torçamos para nossos times – e para o término das hipocrisias mundo afora.


Caio Colagrande Castro

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Ah, o dia 23...

23 de novembro de 2008. 13 horas. Para muitos, o momento pelo qual investiram tempo, dinheiro e dedicação por toda a vida. Para outros, a hora em que o macarrão será servido no domingão. Sim, a Fuvest está aí, tudo o que você aprendeu será posto à prova. Motivo para desespero? Não, muito pelo contrário.
Nessas épocas, os jornais colocam como manchete o desespero de alunos, as últimas estudadas, nível de stress lá em cima, enfim, como se a véspera fosse tão (ou mais) importante que o dia do exame. Eu, particularmente, discordo de tudo isso aí. É claro que os dias que antecedem a prova são importantes, não para estudar, mas sim para relaxar. Isso mesmo, relaxar. Pense bem: um ano intenso, com horas a mais na escola, provas atrás de provas... não são dois, três dias que ditarão o seu destino daqui para frente. O intelectual já foi bastante lapidado; é preciso, portanto, preparar o lado emocional (porque sim, ele pesa bastante na hora da prova). Eu posso ouvir muitos xingamentos pelo o que vou dizer, mas o importante é pensar na Fuvest como mais uma. Não estou dizendo para deixá-la de lado e ir todo desleixado preencher o gabarito; estou dizendo para ter em mente que não passar não é o fim do mundo, mesmo porque estamos falando de algo muito concorrido.
No mais, é isso aí, leve lápis, borracha, caneta, água, um pacote de Bis e uma boa dose de calma. Para aqueles que tentarão passar para a segunda fase, boa prova! Para os que não, bom almoço!

Caio C. Castro - 3º EM.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

A inominá

O convidado da semana é Charles Bonares; confira o texto dele e uma breve descrição sua logo abaixo:


[Charles Bonares, outubro, 5] Meus dias acontecem dentro de mim,

e, de tão próximos, parecem maiores.

Surpreendo-me com a realidade transigindo

quando eu mesmo contava meus mortos no quintal.

Na verdade, estes mortos voltaram para a terra,

e alimentam meus minutos antes de eu ir também.

Assim não são as coisas que parecem,

e a certeza insuspeitável da mudança ressurge.

Deglutem-se as matérias e os pensamentos

ainda que as palavras tentem traduzir o indizível:

esta sensação de que os dias me consomem

enquanto consumo meu passado no quintal

e este desaparece sob o peso leve das eras.

Ilustre, meu comedimento me alegra por inteiro.

Palavras, palavras, meras palavras!
Nunca o mesmo e igual sempre, resisto.


Charles Bonares, 27, é professor de Língua Portuguesa formado pela USP, mas sabe falar mais algumas "trocentas" línguas. Além disso, escreve para o blog Chiadofone (http://chiadofone.blogspot.com/).

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Lembrar

Esta semana dois fatos me divertiram. Um deles foi rever a foto de fim de ano da nossa escola, quando tínhamos 6 ou 7 anos ( fim do 3ºestagio), todos pequenininhos, sentadinhos um do lado do outro, com sorrisos enormes, com o uniforme amarelinho (parecíamos uns pintinhos) e com a professora do lado (se eu não me engano o nome dela era Débora) . E a outra foi relembrar alguns de nossos filmes preferidos quando crianças, cada um com o seu. Seja a Branca de Neve, a Bela e a Fera ou qualquer outro que assistíamos inúmeras vezes e não nos cansávamos, (coitados de nossos pais).
Foi um momento gostoso e divertido, principalmente por ver quanto crescemos (não só de tamanho), evoluímos e estamos diferentes, afinal passaram-se quase dez anos, quantas coisas fizemos durante esse tempo e guardamos as mais diferente lembranças.
Então fiquei pensando no que vai acontecer daqui para frente, estamos concluindo mais uma etapa, fechando mais um ciclo e abrindo outro, que nos aguarda com muitas surpresas e sucessos, tenho certeza.
Resolvi escrever esse texto para isso, relembrar coisas boas, sejam elas quais forem, mas não para ficar com aquela sensação de saudades ruim e muito menos para parecer uma despedida.
Pode parecer meio bobo o que estou dizendo, mas é bom saber que temos essas lembranças, por mais simples que elas pareçam e por mais sem sentido também; e é bom poder contar para alguém que as viveu conosco.
Enfim, as lembranças só irão aumentar daqui para frente e dividi-las vai ser cada vez melhor.

Thaynan Pietro - 3º EM

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Surge-se arte!

Um raio de luz penetra no quarto, até então escuro. Amanhece! Dia quente e iluminado, acompanhado com o mesmo ambiente da manhã anterior.
Demora-se um pouco para levantar, até que a exaustão de pensar torna-se mais insuportável do que o próprio cansaço físico.
A idéia na cabeça, um pouco embaçada, confundindo-se com as atividades corriqueiras, e com o pensamento de que ela, assim como o talento e a inspiração não podem ir embora. A pressa toma conta de seu corpo, e em poucos minutos já se vê sentada em meio a um ambiente claro e vazio, olhando para nada mais do que uma peça branca ao meio de tantas outras coisas que, no momento, tornam-se secundárias. Fecha os olhos, já enxerga a paisagem tão sonhadora e reluzente, acompanhada de um rio, que corta as margens das árvores de outono, levando consigo folhas e flores já desbotadas e sem vida. Raios que cortam a superfície da floresta, o sol ao fundo, e a noite chegando.
Ouvem-se os ruídos da pura imaginação, que se desprende da mais concreta realidade. É quando que ela decide abrir os olhos, feliz com a imagem que projetou em sua cabeça, e aliviada por saber que o lugar não tinha se apagado. Com tudo pronto, decide começar. Com todos os instrumentos preparados leva seu pincel à tinta, oleosa da cor laranja. Abrindo um largo sorriso, toca a tela, e desliza conforme sua ansiedade e sua respiração, promovendo a emoção e libertando a arte.

Bianca Pelizaro de Souza, 3ºEM - Colégio Rícaro

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Divagações...

Esse é o primeiro texto que nós postamos escrito por um(a) convidado(a). Ao final dele, você encontra algumas informações sobre o autor(a).

Meus alunos criaram um blog... e escreveram pelo simples de prazer de escrever, de se relacionar.
E fiquei aqui pensando. Sobre o mundo atual... meio filosófica ou não, escrevo esta crônica, que nem sei se eles vão achar interessante. Mas aqui vai.
Viver é mágico.
Desejos, sonhos, anseios. Vestibular, bom emprego, grande amor, crescer na vida, ser alguém, ser importante, mudar o mundo! Todos os dias levantamos e saímos mundo afora pra fazer alguma coisa nem que seja pelo egoísta objetivo de felicidade própria e isolada. Mas deparamo-nos com o mundo real. Onde o colorido tem menos tom porque simplesmente as pessoas se esqueceram do sentido, dos valores, se esqueceram da esperança de um mundo melhor.
Sabe, fico me perguntando por que roubam na política, por que não enxergam a desigualdade social, por que tanta indiferença ao conhecimento... por que hoje é legal ser jogador de futebol, dançarina de funk? Por que a “bundalização” e não a cultura? Por que a vantagem e não a solidariedade?!
E, em plena véspera de eleição, relembro Maquiavel... “não é essencial possuir todas as qualidades (…), mas é bem necessário parecer possuí-las.”
E porque tanta hipocrisia e distância?
Imersos numa ordem das coisas onde a meta é vencer na vida, onde os fins justificam os meios. A qualquer preço... E assim, vivemos.
Às vezes eu me assusto com a juventude nas minhas andanças docentes...
Associando felicidade com dinheiro, acreditando no “rouba, mas faz”, procurando se achar melhor... atendo-se a valores como estética, moda, corpos sarados e mentes vazias...
E me pergunto de que vale levantar todos os dias pra procurar mudar o mundo? Sim, mudar o mundo!!! Mas não o mundo da História dos livros... e sim, o mundo que nos cerca! Porque ainda acredito na possibilidade de sermos sujeitos da nossa própria História!
E respondo com uma inocência quase pueril... porque se não acreditarmos num mundo melhor, não vale apenas olhar nossa cara no espelho. E se encarar. Pois diante da iniqüidade atual, dentro de nossos olhos existe apenas sombra, a sombra da caverna de Platão... dando as costas pra realidade muito além de nosso mundinho pessoal.
Pseudo-humanos, tal qual numa Matrix... vivendo hipnotizados pela ilusão de estar sendo vencedor. Pseudo-cidadãos, na ilusão de que não se pode fazer a diferença. Humanóides inúteis, que reproduzem cultura sem sentido, distanciada de qualquer coisa que possa gerar um pensamento, um questionamento, uma crítica!
Acreditar no mundo... eis o sonho de uma humanista incurável, que por pessoas raras com as quais cruzamos no caminho, ainda acredita num futuro menos sombrio e num amanhã mais altruísta, onde o sorriso franco tenha mais valor do que uma carteira recheada de dinheiro. Taí... divaguei, registrei, escrevi!

Karina Figueiredo, 28, é professora de História formada pela USP em 2004 e, atualmente, dá aulas em escolas da Freguesia do Ó.